VOCÊ PODE TER SUA CERVEJA ARTESANAL: UM BRINDE!

O lançamento de uma marca de cerveja pelo rapper Dexter, que ocorre hoje (23/03), vai além de um simples evento comercial. Também não é um caso simples de ser analisado, tampouco deve ser encarado de maneira rasa. Quando um artista periférico lança um produto associado a uma indústria que historicamente destruiu vidas nas periferias e impactou povos originários, surgem questionamentos inevitáveis.

Este texto explora dois aspectos do caso: a) o impacto da associação de Dexter com o álcool, considerando como isso se relaciona com os princípios do Hip Hop, e b) o significado de realizar o lançamento em um bairro burguês, como a Vila Madalena, explorando questões de classe e os valores que sustentam essa escolha pela bebida alcoólica. Para aprofundar o debate, usaremos o próprio Rap como referência, com base nas músicas "Um Brinde", do grupo Inquérito, e "Eu Acredito", do Eduardo.

Dexter, uma figura fundamental para o Rap nacional, sempre representou a força da periferia em transformar sua realidade e denunciar as mazelas impostas pelo sistema. No entanto, ao lançar uma cerveja, sua imagem se associa a uma mercadoria e uma indústria que, historicamente, sãos sinônimo de tragédias na favela. O som "Um Brinde", do Inquérito, já expõe essa contradição, descrevendo desde a exploração nos canaviais como o álcool destrói famílias, perpetua pobreza e gera lucros às custas de trabalhadores e trabalhadoras. Sendo assim, como conciliar a responsabilidade social do Hip Hop com as exigências do mercado capitalista?



"Eu Acredito", por outro lado, mostra que a periferia tem a força necessária para conquistar seus espaços e construir algo maior. Podemos sonhar e criar nossas grifes, mas há limites éticos que não podem ser ignorados. Isso provoca perguntas inevitáveis: qual o real objetivo de estampar o rosto de Dexter em uma lata de cerveja e distribuí-la, inclusive na favela? A promessa de tornar o produto acessível não altera o padrão estrutural que já existe, muito menos cria uma nova cultura de consumo. Oferecer álcool "menos caro" na periferia não desafia as engrenagens do mercado, mas sim as reforça.

A escolha da Vila Madalena, um bairro elitizado e distante da realidade da periferia, também adiciona outra camada de complexidade. Enquanto na favela o álcool é associado à dependência, violência e pobreza, na Vila Madalena ele ganha uma imagem de sofisticação e status. Essa diferença não é só uma questão de contexto, mas revela as barreiras de classe que afastam o produto da periferia e reforçam sua exclusão simbólica. Para quem, afinal, essa iniciativa foi pensada? Quem é incluído e quem segue excluído? São perguntas que revelam como decisões comerciais podem estar mais alinhadas aos interesses de mercado do que às comunidades que o Hip Hop representa.

A ideia apresentada por Will, parceiro de Dexter, de levar a cerveja artesanal à favela "quebrando o estigma de que é caro", também merece ser problematizada. O uso do termo "estigma" aqui é equivocado. Quem carrega estigma não é a cerveja artesanal, mas sim pessoas, como Dexter, com sua história periférica e o peso do estigma de egresso do sistema carcerário. Além disso, a cerveja artesanal é de fato um produto caro, e o argumento de acessibilidade não resolve nenhuma desigualdade de consumo. Favelados podem consumir o que quiserem, mas as prioridades do Hip Hop são outras — não se trata de impedir o consumo, mas de questionar o impacto cultural e estrutural dessas escolhas.  

Sendo assim, o cenário que se desenha é quase irônico: um rapper de quebrada cria uma cerveja com ares de exclusividade, com seu rosto estampado na lata, lança o produto em um bairro burguês e, em seguida, promete vendê-lo mais barato nas favelas para "romper o estigma" da cerveja artesanal. 

Esses dois debates — o impacto de lançar uma cerveja no contexto da cultura Hip Hop e o simbolismo do local de lançamento — se conectam na necessidade de compreender a responsabilidade que figuras como Dexter carregam. Ele não é o hip hop, e o Hip Hop não é ele, mas há uma relação íntima entre ambos. Suas escolhas refletem algo maior sobre o movimento, que nasceu para confrontar e transformar, e não para se adaptar às engrenagens capitalistas.

Este texto abordou apenas dois aspectos da problemática, mas seria válido questionar a lógica neoliberal do empreendedorismo de si mesmo, que permeia essas iniciativas. Poderíamos também aprofundar o debate sobre a presença do álcool nas periferias, embora o próprio Rap já discuta esse tema com profundidade. Outro ponto relevante seria a ideia de inserção social, que aqui parece representar mais uma inclusão perversa do que uma inclusão real. Essa inclusão perversa ocorre quando algo ou alguém é integrado à estrutura, mas apenas na base, em posições de subalternidade, sem que haja transformação ou mudança significativa no sistema como um todo. No entanto, o mais urgente agora é refletir de forma objetiva: qual benefício uma cerveja artesanal realmente traz ao Hip Hop e às periferias?

A responsabilidade com o Rap e o Hip Hop não significa castração ou impedimento aos seus e suas agentes, mas exige reflexão sobre quem está sendo beneficiado e quem continua marginalizado. Lançar uma cerveja pode ser legítimo, mas o olhar que sustenta a iniciativa e os impactos reais sobre a periferia são questões que devem ser debatidas entre os mais oprimidos e oprimidas. Afinal, o que está em jogo não é apenas uma bebida ou uma marca, mas o papel do Hip Hop em continuar sendo uma ferramenta de transformação social, fiel às suas raízes e valores. Dexter é parte do movimento, e sua escolha, mesmo entre tensões e contradições, deve ser espaço para análise e aprendizado.

Cá entre nós, sem querer endossar o discurso empreendedorista, enquanto nos Estados Unidos os rappers estão investindo em iniciativas como a maconha medicinal e apoio aos presos, no Brasil ainda estamos concentrados na produção de bebidas alcoólicas. É claro que existe a liberdade individual, e cada um pode investir no que quiser, sem dúvidas. Contudo, quando os desejos, anseios e projetos individuais se afastam de um projeto coletivo maior, é evidente que há alguma ideologia agindo sobre essa mentalidade.

O Rap e o Hip Hop servem à resistência e à transformação, e sua essência caminha longe da adaptação ao sistema e seus desejos capitalísticos.




Autoria:
Thiago Augusto Pereira Malaquias
Psicólogo, Especialista em Direitos Humanos e Mestre em Psicologia.
Produtor audiovisual em: Rap que inflama a insurgência

Instagram: @tapsicologo 

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